Transição Climática Sankofa e Big Ben
Os movimentos dos territórios nos colocam em encontros que nos move para encontros e nos conecta em encontros. É uma forma Sankofa¹, pensamento filosófico milenar africano de vivermos os tempos do vivido, do que vivemos e do que ainda poderemos viver.
Essa forma filosófica de pensar os tempos nos escapa se o tempo está limitado aos espaços que foram cronometrados na forma universal do Great Bell, mundialmente conhecido como Big Ben, relógio erguido em 10 de abril de 1858, na torre do parlamento britânico na cidade de Londres (Inglaterra).
O tempo Sankofa tem como princípio a volta ao conhecimento do passado por ser o futuro. Já o tempo do Big Ben compreende o tempo como a partida do último trem e a espera pelo próximo. Pensar Sankofa está no entendimento que chegamos ao século XXI, buscando respostas nas terras dos Povos Tupi e Guarani, para a forma diaspórica africana, o Quilombo². Uma dimensão de vida nas terras em culturas insubmissas à sociedade cultural Big Ben, que só consegue entender mudanças em consensos que mantenham sua memória viva como princípio, diante de todas as demais formas de não consumir as terras. Os quilombos nos deram, no presente, as condições de mover-nos em tempos como nunca visto. Porém, esses tempos precisam ser parte dos movimentos que salvem as humanidades diante do mundo em pleno aquecimento, com ondas de calor extremos nas cidades e com os rios secando nas florestas.
Em 2007, o Mestre Jaime Cupertino³, do Território Quilombola de Vazante (Seabra-Bahia), conceituou os crimes de racismo ambiental contra as populações e os territórios quilombolas da Chapada Diamantina de “As águas não têm cor”. Para o Mestre, a água é incolor. No entanto, ganha cor pelos crimes que, nos últimos 524 anos, se estabeleceram nas terras pelas culturas que cronometram as vidas em Big Ben.
Os tempos de encontros comprovam que estamos sobrevivendo numa trajetória rumo à descarbonização, mas nos mantemos no processo histórico de capitanear os elementos naturais, como o ar e a luz solar, como fonte do capital. É a natureza sendo recurso da carbonização do Big Ben, mesmo que a ideia seja descarbonizar. Dessa forma, reestabelecem-se as escalas raciais no espaço global e o apagamento do Sankofa, a memória da Terra.