REFLORESTAR MENTES PARA NOVAS POSTURAS ECOLÓGICAS

por Naine Terena

Um grande ponto de discussão acerca das ações para a contenção das mudanças climáticas surge em torno das ações governamentais para esse tema. É necessário que essas ações não sejam apenas mediadoras das atividades consideradas predatórias, mas que sejam pensadas para se aplicar efetivamente em diferentes camadas de atuação, desde o controle das indústrias-tecnologias que avançam na vegetação brasileira até a manutenção das nossas subjetividades, das relações sociais que têm cada vez mais sido dominadas pela economia do acúmulo de riquezas liderada por uma pequena parcela de pessoas, o que estimula inúmeros adoecimentos na população mais fragilizada pelo impacto das mudanças climáticas. Mudança climática é também mudança sociocultural e de saúde física e mental.

A economia do acúmulo de riquezas advém das relações de consumo excludente, onde a exploração de recursos naturais, relacionada à exploração e exclusão humana, desumaniza as noções culturais de coletividade e subjetividades. Nesse sentido, o movimento indígena brasileiro tem insistido em ‘reflorestar mentes’ a fim de que os povos indígenas sejam escutados a partir de seus saberes e tecnologias e possam incorporá-los em prol do bem viver coletivo e individual.

Da parte do Estado brasileiro, é preciso urgentemente realizar a escuta ativa para a implementação de políticas culturais que realmente atendam as demandas dos povos indígenas, garantindo a participação e controle social e a segurança cultural-física-territorial. Tal ação é um caminho para que se evite o ‘fatiamento’ dos saberes e modo de vida dos povos, em especial daqueles que vivem nos aldeamentos (rurais e urbanos) e aplicam no cotidiano o zelo das ações coletivas, comunitaristas e princípios cosmológicos baseados no equilíbrio homem-natureza [ainda que afetados pelas relações de consumo, incorporadas a partir dos atravessamentos do modo de vida dos não indígenas].

Nesta caminhada de pesquisa-ação no campo das artes indígenas, mercado e estética no contemporâneo, tenho me deparado com muitos modos de se fazer arte indígena, quase sempre atrelados ao caráter comunitarista, muito comum entre os povos indígenas. Dos muitos exemplos que tenho observado, está o coletivo indígena Mahku, com artistas Huni Kui do Acre, o Coletivo Kokir, atrelado a povos do sul do Brasil, em especial os Kaingang, e também o Centro de referência Afro- -indígena no Rio Grande do sul. O que esses coletivos/redes trazem em comum é o pensamento cosmogônico indígena sobre o bem viver, pautado no equilíbrio entre todos os mundos e entes que os habitam. As manifestações estéticas desses movimentos são maneiras de dialogar entre si e também com os não indígenas. Eles praticam ações político-comunitárias capazes de atender às demandas coletivas de sobrevivência física e cultural, seja em áreas rurais ou nas cidades. É a arte-cultura como mobilizadora de cotidianos.

Essa menção é feita como um breve exemplo de maneiras de se relacionar arte, conhecimento indígena e organização social, a fim de colaborar para a co-criação de possibilidades de cidades, bairros, comunidades fortes, com relações de vizinhança pautadas em memórias de paisagens em comum, mas também para apontar o quanto a presença de artistas e de fazeres culturais são importantes para a manutenção dessas paisagens coletivas e vívidas entre a população de maneira geral.

Naine Terena

Naine Terena é doutora em educação e mulher do povo Terena, é pesquisadora, professora universitária, curadora e artista educadora e fundadora do Oráculo comunicação. Foi diretora de Educação e formação artística no Ministério da Cultura e atualmente coordena o Projeto de Pesquisa Museu-lab de Arte, Ciência e Tecnologia.