POR QUE A CULTURA É IMPORTANTE NAS AÇÕES CONTRA AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?

por Shirley Krenak

Quando me perguntam sobre a cultura do meu povo, sobre a luta do meu povo Krenak, eu sempre respondo que, se estamos resilientes, é pela pujança de nossa cultura. E, quando digo isso, não quero que vocês entendam que se trata de uma cultura cheia de objetos materiais, mas uma cultura que cultua sua ancestralidade, que sabe os caminhos percorridos pelos nossos antepassados e sua importante relação com a mãe-terra. Diferentemente dos não-indígenas, meu povo Krenak e minha cultura não segmenta o mundo para dizer o que é “humano” e o que é “recurso dos humanos”.

Isso sempre marcou minha ação no movimento indígena, desde meus 13 anos de idade. Se, para alguns, os problemas que vivemos hoje com a emergência climática decorrem das nossas próprias ações, o que estão chamando de “antropoceno”, para mim, trata-se de uma situação um pouco mais complexa: um total desequilíbrio e desrespeito com a cultura dos povos indígenas. E esse desrespeito tem suas consequências. Os povos nativos desta terra produziram regimes culturais dos mais variados, mitos que contam nossas origens e várias histórias antigas. Aprendi muito dessas histórias na beira do Watu, contadas por meu pai. A cultura dos povos indígenas forja o modo como nos colocamos em relação de reciprocidade com muitas das entidades que os não-indígenas tratam com desprezo e, hoje, sofremos as consequências dessas ações.

Por isso, ao ser provocada a pensar sobre essa relação entre a crise climática e os aspectos da cultura, sempre me perguntava por qual razão o conhecimento não-indígena ainda insiste em observar aspectos da cultura de um povo como “místico” ou “folclórico”? A cultura é o espírito que anima tudo. As mudanças climáticas são apenas a consequência de um espírito atacado, dilacerado. É um sintoma cuja causa precisa ser combatida.

O que eu noto é existir um regime de equívocos no trato da emergência climática. O primeiro, se hierarquiza os diferentes saberes na tentativa de reversão de um quadro de desrespeito à Mãe-terra, ocasionado por uma parcela muito pequena dos existentes. Em segundo lugar, a cultura dos não-indígenas realmente acredita que ela, sozinha, sobreviverá. Pura arrogância. Por isso, nessa breve reflexão, deixo apenas uma pergunta: que tipo de adubo todos nós gostaríamos de ser para a Mãe-terra?

Shirley Krenak

Shirley Krenak é ativista e escritora. Atualmente coordena o Instituto Shirley Krenak, é autora do livro “A onça protetora” e coordena também o projeto “Sons que Curam”. É doutora honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora e uma das fundadoras da ANMIGA – Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade.