JUSTIÇA CLIMÁTICA E DIREITOS DAS MULHERES NA CADEIA DA MODA

por Eloisa Artuso

A nossa cultura de consumo está, sem dúvida, consumindo o planeta. A indústria da moda, que é altamente criticada por seus excessos, abusos de direitos humanos e esgotamento ambiental, luta para dar respostas às suas contribuições para a tripla crise planetária: mudanças climáticas, perda da biodiversidade e poluição. A cada ano, o setor emite de 2-8% dos gases de efeito de estufa do mundo, mas ainda assim não é incluído, com sua devida responsabilidade, em uma agenda para a mitigação e adaptação de seus impactos.

Sabemos que a crise climática não é justa, portanto, é preciso reconhecer que gênero está intimamente ligado ao clima. As mulheres têm sido as mais afetadas e as trabalhadoras da indústria da moda, por sua vez, estarão cada vez mais suscetíveis a impactos do clima. Mulheres enfrentam fenômenos como a insegurança alimentar, em combinação com outros fatores, e têm meios limitados para se adaptar a estes desafios. Compreender a crise climática sob uma perspectiva não só de gênero, mas também sociocultural nos ajuda a entender as vulnerabilidades específicas e traçar estratégias que possam alcançar as mulheres ao longo da indústria da moda.

Da produção de fibras à imensa quantidade de resíduos têxteis produzidos no mundo, a indústria se mostra um sistema que produz excessivamente para atender estimativas de crescimento e lucro que não cabem em um planeta de recursos finitos. O problema está no modelo de negócio, que é antiecológico. Para lidarmos de forma justa com a crise do clima, é importante que haja uma revisão e propostas de matrizes socioeconômicas alternativas que sejam capazes de fortalecer a capacidade de desenvolvimento local sustentável e preservar biomas e culturas dentro do sistema da moda.

Estudos que olham para alternativas ao sistema produtivo hegemônico da moda apontam para o papel e o espaço ocupado pelas mulheres em suas comunidades como um importante passo, se quisermos falar de produção justa com comércio de matérias- -primas e produtos que garantam segurança alimentar, manutenção dos biomas locais e equidade. Maior igualdade econômica, de gênero e racial na indústria da moda é vital para lidarmos com a crise do clima. Podemos aprender muito com saberes e práticas que demonstram a riqueza cultural, a diversidade de habilidades, as relações estabelecidas com a natureza local, que podem envolver desde a produção familiar de algodão agroecológico ou da borracha natural, que vêm regenerando territórios e mantendo as florestas em pé, passando pela produção de rendas e diversos trabalhos manuais que encontram na oralidade a preservação de suas tradições, passadas de geração em geração.

Eloisa Artuso

Eloisa Artuso trabalha com pesquisa, projetos, estratégias e educação com foco em justiça climática e direitos das mulheres na indústria da moda. É cofundadora do Instituto Febre, onde atua como diretora executiva. É também palestrante, professora de design sustentável e colunista da Carta Capital e do Design Ativista/Mídia Ninja.