Nos últimos anos, meu trabalho tem se concentrado em colocar o comum como uma lente central para repensar nossas relações com o mundo e entre nós. Tanto o Estado quanto o mercado são invenções modernas, mas o que realmente sustenta a vida cotidiana são nossas relações de afeto, cuidado e interdependência. Quando compreendemos a cultura e a natureza como espaços do comum, abrimos portas para soluções inovadoras que estão enraizadas na coletividade, na criatividade e no paradigma do cuidado.
A capacidade humana de criar e cuidar é uma força poderosa e infinita. A criatividade está na base tanto das artes quanto da construção de novas institucionalidades, e é essa capacidade que precisamos ativar para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. No entanto, para criar futuros, precisamos nos situar no passado e no presente e enxergar nossos saberes, nossas memórias, nossas histórias como parte daquilo que vamos precisar ativar para construir novos sentidos.
Como escreve o diplomata e escritor senegalês Birago Diop:
Atente os seus ouvidos
Mais às coisas que aos Seres
À voz do Fogo, fique atento,
Ouça a voz das Águas.
Ouça através do Vento
A Savana a soluçar
É o Sopro dos ancestrais.
O poema, citado por Luciane Ramos Silva em entrevista a mim para o livro Sensing Earth: Cultural Quests Across a Heated Globe, evoca a continuidade de nossa conexão com os ancestrais, revelando o tanto de sabedoria contida em modos de vida afro-indígenas e ancestrais. Sob o paradigma do sucesso e do êxito, esses saberes são frequentemente considerados obsoletos, enquanto em alguns espaços o interesse por eles cresce, como por exemplo no mercado da arte. Contudo, esse interesse muitas vezes carece de escuta e entendimento genuíno, um que seja capaz de promover consciência e transformação. Pensemos: há algo profundamente errado em saber que, neste exato momento, há pessoas no mundo que têm uma relação íntima e simbiótica com seres não-humanos e que estas mesmas pessoas, há pelo menos 500 anos, estão sendo assassinadas e tendo suas terras saqueadas em nome de uma sanha que só leva à concentração de renda, violência e colapso. Pensar a cultura e a natureza como comuns implica refletir sobre nossa relação com a produção de saberes, os recursos e a reprodução da vida. Já sabemos que as terras habitadas por povos indígenas são as que mais preservam a fauna e a flora e que essa preservação não se deve a uma ausência de impacto, mas a outro tipo de entendimento de si e do mundo. Uma lógica de interdependência não leva ao esgotamento, porque todas as vidas são necessárias para que a vida continue.
A artista Mierle Laderman Ukeles já destacava em 1969, em seu Manifesto for Maintenance Art, “Depois da revolução, quem vai recolher o lixo na segunda-feira de manhã?”. Sua obra nos provoca a pensar sobre o cuidado e o trabalho de manutenção invisível que sustenta a vida. O colapso climático é também o colapso de um sistema que valoriza o sucesso vinculado ao consumo e à produção de bens materiais a qualquer custo, ignorando as práticas de cuidado que sustentam a vida. Precisamos de uma transição para um paradigma de cuidado, que nos chama a cuidar de nós mesmos, dos outros e do planeta.
A experiência de reciprocidade com o mundo natural, como apontado pela cientista Robin Wall Kimmerer, é um exemplo poderoso de como podemos nos reconectar. Em um experimento conduzido em uma plantação de erva-doce americana, a área que prosperou mais foi aquela em que a pesquisadora interagiu com a planta, conversando, oferecendo cuidados. Isso nos lembra que não somos parasitas do planeta; temos algo a oferecer em retorno, mas precisamos reaprender e exercitar práticas de reciprocidade e convivialidade.
Se existem chances de agir para produzir um futuro para todos, elas residem na compreensão da cultura e da natureza como comum. E é a partir dessa chave que devemos olhar para a cultura e a natureza como espaços de reciprocidade e interdependência, promovendo estratégias de bem viver que emergem da sabedoria coletiva e da criatividade. No evento SulxSul, co-organizado pelo Instituto Procomum, exploramos — com organizações e ativistas de 15 países do Sul Global — protótipos de colaboração entre organizações com expertises e saberes diferentes. Os resultados passam por ideias de produção de cultura, sentido, colaboração, conhecimento e mobilização social. Projetos como a Biblioteca de Histórias Climáticas, que busca promover a memória, a ancestralidade e a valorização das nossas diversidades de cosmovisão, apoiando as comunidades a produzirem conteúdo próprio sobre suas experiências com a crise climática. Outro exemplo é o projeto Saberes Ancestrais como Estratégia para a Justiça Climática, que destaca a importância da escuta coletiva dos conhecimentos tradicionais como uma ferramenta essencial para enfrentar a desconexão entre as narrativas globais e os saberes locais. Não é fácil, é uma disputa política mais do que qualquer coisa, mas é fundamental afirmar a cultura como espaço essencial de produção de conhecimento, sentido e experimentação — que são justamente o que estamos precisando neste momento. É tudo nosso e de todos nós, seres viventes e não viventes, e precisamos arriscar mais, apostando na nossa capacidade de imaginar e criar juntas, fazer o futuro com nossas mãos, mentes, corpos e espíritos em comunhão.