ENTREVISTA COM MÁRCIO TAVARES, SECRETÁRIO EXECUTIVO DO MINISTÉRIO DA CULTURA DO BRASIL

Entrevista concedida em 10/10/2024 ao C de Cultura e Outra Onda Conteúdo para compor o presente relatório.

Márcio Tavares

Márcio Tavares é Secretário Executivo do Ministério da Cultura do Brasil, doutor em Arte e mestre em História. Historiador, curador de arte e gestor cultural, tem trajetória acadêmica e profissional voltada à pesquisa da arte na América Latina, à materialização da memória, ao audiovisual, à museologia e às políticas culturais.

1Como as formas de expressão cultural podem promover a conscientização, apoiar na comunicação dos riscos e propor soluções relacionadas à crise climática?

Evidentemente, a diversidade de expressões culturais no Brasil têm muito a contribuir não apenas para a conscientização a respeito da agenda climática, mas também com saberes e fazeres que propõem uma transformação da relação entre o ser humano e a natureza. Por um lado, temos as linguagens artísticas, como as artes visuais, o cinema e a música, que possuem um potencial gigantesco de contribuir ativamente para a conscientização sobre a preservação do meio ambiente e o engajamento da sociedade na superação da emergência climática.

Por outro lado, temos as comunidades tradicionais, os povos originários e quilombolas, que promovem outras formas de vida, baseadas na preservação da natureza. O próprio conceito de “bem viver”, difundido sobretudo por comunidades indígenas, aponta uma outra visão de desenvolvimento que não está calcada na exploração dos bens naturais, das florestas, das águas ou na poluição. Parafraseando Ailton Krenak, acredito que esses povos já nos ensinam a buscar formas de “adiar o fim do mundo”, mas também nos ensinam a enxergar um outro mundo possível.

2Na sua visão, quais são os pontos de convergência e divergência entre as agendas políticas e sociais de Cultura e Clima? E quais são as potencialidades e barreiras para a conciliação dessas duas agendas? 

Quando abordamos uma agenda mais ampla, que envolve diversas organizações e ministérios, destacamos, em especial, a contribuição que a cultura pode oferecer na dimensão da prevenção das crises climáticas, ao promover outras formas de pensar e se relacionar com o planeta. No entanto, essa pauta é geralmente subjugada pelas urgências dos eventos climáticos extremos — como queimadas, enchentes, tufões, entre outros — que exigem resposta imediata dos órgãos governamentais. Assim, temos direcionado nossa atuação cada vez mais para a articulação com diferentes setores, para ampliar também o debate sobre a contribuição das diversidades culturais presentes no Brasil para as políticas de desenvolvimento, visando à superação das desigualdades e à preservação do meio ambiente.

No âmbito da cultura, é necessário assumir um maior protagonismo, fomentando essa discussão em diversos fóruns e espaços. É exatamente isso que temos feito no Ministério, seja por meio da participação na COP, com o Grupo de Amigos da Ação Climática Baseada na Cultura1, seja propondo a inclusão da agenda cultural e climática no G20. Assim, ao estruturar mesas de discussão em que diversos agentes possam se reunir para tratar do papel da cultura na prevenção, resiliência e superação de eventos climáticos extremos, esperamos construir uma governança nacional e global muito mais efetiva no enfrentamento da atual emergência climática.

3 Quando a gente fala de desenvolvimento social, a cultura como desenvolvimento social, é realmente importante ressaltar que os mecanismos de fomento à cultura tratam exatamente isso. De que forma os atuais mecanismos e políticas culturais podem contribuir para o enfrentamento dos efeitos das mudanças climáticas? 

Não tenho dúvidas de que as políticas culturais desempenham um papel crucial na discussão sobre a emergência climática. Sem uma política ativa de fomento, comunidades tradicionais, povos originários e quilombolas não têm garantia de alcançar a sustentabilidade, que deve vir por meio de suas próprias expressões e manifestações culturais, e não de atividades predatórias como o garimpo, a exploração das florestas e a poluição das águas. Caso contrário, suas cosmologias correm o risco de serem engolidas pela lógica neoliberal que tem silenciado outras visões e possibilidades de desenvolvimento humano nas últimas décadas.

Além disso, as políticas também oferecem uma oportunidade concreta de assegurar que a sociedade como um todo possa usufruir dos bens culturais produzidos e, assim, se engajar em temas relacionados à conscientização sobre a emergência climática. Com um financiamento contínuo, temos uma capacidade exponencial de garantir essa realidade em todos os territórios do Brasil.

Em uma terceira perspectiva, temos discutido a criação de protocolos que devem influenciar o desenho, a execução das políticas e o desenvolvimento da economia criativa, com foco na sustentabilidade. Estamos falando de mais de 15 bilhões de reais em fomento direto ou indireto à cultura, gerando desenvolvimento, circuitos econômicos e cadeias produtivas que precisam ser estruturadas com base nesses princípios. As diretrizes da nova etapa da Política Nacional de Economia Criativa2, que serão implementadas a partir do próximo ano, buscam promover resiliência para que as comunidades tradicionais tenham condições de sobreviver e se desenvolver, irradiando seu modo de vida, suas manifestações e linguagens artísticas, com produção, fomento, distribuição e circulação adequados.

4 Em relação a esses protocolos, há desdobramentos para contrapartidas ambientais, para reduzir o impacto ambiental e ter mais projetos focados neste tema? Que protocolos estão em desenvolvimento? 

Vamos precisar desenvolver protocolos para o que chamamos de fomento direto e indireto. É essencial garantir que os projetos culturais se tornem cada vez mais sustentáveis, reduzindo o uso de plástico e outros materiais poluentes, especialmente em grandes eventos. Por isso, é fundamental estabelecer protocolos claros para essas iniciativas. No Ministério, já há uma discussão em curso dentro dessa reformulação do fomento e também da construção da política nacional de desenvolvimento da economia criativa, com o objetivo de criar protocolos que assegurem que o rápido crescimento das iniciativas culturais seja acompanhado de uma preocupação ativa e consciente sobre a necessidade de enfrentar a emergência climática global.

5 Que caminhos você considera prioritários para que a gente avance na institucionalização, do ponto de vista do Ministério da Cultura, dos sistemas de conhecimento de povos e comunidades tradicionais?

No escopo do Sistema Nacional de Cultura3, que está sendo regulamentado agora, estamos desenvolvendo um conjunto de sistemas e planos setoriais, como o Plano Nacional de Cultura, a ser enviado para o Congresso no ano que vem, em que uma das dimensões centrais é a da sustentabilidade. Nesse sentido, estamos desenvolvendo também a Política Nacional e o Plano Nacional para as Culturas Populares e Tradicionais4, que busca dar não apenas visibilidade, mas também organizar essas políticas.

Hoje, temos no contexto do governo federal, políticas e estruturas específicas para as comunidades tradicionais, quilombolas e povos originários. Quando discutimos, por exemplo, o desenvolvimento das políticas de ações afirmativas dentro do fomento, tanto da Lei Paulo Gustavo quanto da Aldir Blanc, nós tivemos o acompanhamento do Ministério dos Povos Indígenas e do Ministério da Igualdade Racial nesses debates. Então, no ministério, estamos focando em constituir esses planos também com a participação e o compromisso de diferentes entes federados com as agendas setoriais.

Por fim, no âmbito internacional, temos defendido, desde o ano passado, na carta do G20 e, novamente este ano, no âmbito dos BRICS, da Unesco e em outros fóruns onde participamos ativamente, a criação de um Objetivo de Desenvolvimento Sustentável específico para a cultura. Uma proposta que fortalece a visibilidade dessa pauta em nível global e gera compromissos por parte dos países em garantir a criação de estruturas institucionais, com financiamento e capacidade de atuação. Dessa forma, busca-se assegurar que as cosmologias, os saberes e fazeres das comunidades tradicionais e originárias tenham lugar nas políticas públicas.

6 Considerando a reformulação do Sistema Nacional de Cultura, os entes subnacionais são extremamente importantes para a disseminação das políticas. Nesse sentido, na frente de Cultura e Clima, é necessária uma grande formação desses entes subnacionais, principalmente as prefeituras. Como o Ministério se prepara para desenvolver políticas e iniciativas que promovam a integração entre as agendas culturais e climáticas, focadas nesses entes subnacionais?

O primeiro grande desafio é a formação de gestores especializados em cultura nos municípios. Precisamos cada vez mais de profissionais capacitados, pois a realidade institucional entre os municípios ainda é bastante desigual e isso se reflete na gestão da cultura. Estamos trabalhando para reduzir essas disparidades. Nosso objetivo é pactuar com os entes federados para que parte dos recursos seja investido na formação de gestores, a exemplo da Lei Aldir Blanc, que prevê 5% de seu financiamento — cerca de 150 milhões de reais do governo federal para estados e municípios — para a gestão da lei. Com um corpo de gestão bem informado e capacitado, que compreenda a lógica do sistema, do plano e suas responsabilidades, daremos um grande salto institucional para o conjunto das políticas.

Assim, é crucial desenvolver uma plataforma contínua de formação e capacitação para diversos temas dentro dessa agenda de Cultura e Clima, com os saberes e fazeres tradicionais, a Política Nacional de Cultura Viva5, além das políticas de patrimônio material e imaterial, também fundamentais para a agenda climática.

Recentemente, no estado do Rio Grande do Sul, tivemos um grande impacto no patrimônio material em diversos municípios. Em decorrência dessa tragédia climática, o governo federal está implementando o maior programa de moradia da história do estado. No entanto, esse processo implica o deslocamento de comunidades, o que também afeta a preservação das manifestações culturais dessas populações. Quando comunidades são transferidas para novos locais, os laços comunitários se transformam e essa mudança deve ser considerada dentro das preocupações com a agenda climática e a preservação cultural.

Rede para Mapeamento e Recuperação do Patrimônio Material, Acervos Museais e Arqueológicos e Arquivos no Rio Grande do Sul

Um exemplo de atuação para a recuperação de bens culturais atingidos em eventos climáticos. Praticamente todas as bibliotecas, centros, museus e outros equipamentos no Rio Grande do Sul afetados estão sendo recuperados pela Defesa Civil a partir da provocação de um comitê liderado pelo Ministério da Cultura. Ou seja, isto representa um novo agenciamento político, no que podemos chamar de infraestrutura cultural e patrimônio cultural.

Veja mais no cap.1 “integrando as agendas de cultura e clima: resumo de evidências” 

7 Falando em G20, COP 29 e COP 30, quais são as prioridades institucionais do MinC para a agenda de mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável, considerando essas plataformas e o momento histórico que vamos vivenciar? 

O Brasil tem um biênio extremamente rico em termos de protagonismo internacional. Estamos à frente da presidência do G20, dos BRICS e sediando a COP 30, o que nos dá a oportunidade de liderar uma agenda global relevante. Desde o início da preparação para o G20, o governo federal definiu duas prioridades que os ministérios devem seguir, expressas no lema do G20: um mundo justo e um planeta sustentável. De um lado, temos a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza; de outro, instrumentos concretos para enfrentar as mudanças climáticas. Nesse contexto, aceitamos o convite do ministério dos Emirados Árabes Unidos para liderar a criação de um importante instrumento para a agenda global de cultura e clima: o Grupo de Amigos da Ação Climática Baseada na Cultura, hoje com mais de cinquenta países participantes.

No que diz respeito à nossa contribuição ativa, destaco as políticas de base comunitária, voltadas para garantir a sustentabilidade das comunidades tradicionais e originárias — uma agenda fundamental que o Brasil oferece ao mundo. Ademais, estamos ampliando a Política Nacional de Cultura Viva a uma escala inédita, com um investimento de 400 milhões de reais por ano, em um ciclo de cinco anos, totalizando quase 2 bilhões de reais. Paralelamente, promovemos o desenvolvimento de uma economia criativa das culturas com uma visão pautada nos princípios da sustentabilidade e atenta à emergência global, conforme delineado na Política Nacional de Economia Criativa.

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1. COP28: Ministra da Cultura lança Coalizão internacional para promover ação climática baseada na cultura. Disponível em:https://www.gov.br/ cultura/pt-br/centrais-de-conteudo/ sala-de-imprensa/avisos-de-pauta/ cop28-ministra-da-cultura-lancacoalizao-internacional-parapromover- acao-climatica-baseadana-cultura

2. Brasil Criativo. MinC lança diretrizes da Política Nacional de Economia Criativa. Disponível em: https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/minclanca-diretrizes-da-politica-nacionalde-economia-criativa-nova-secretaria-tambem-e-anunciada

3. Portal do Sistema Nacional de Cultura: http://portalsnc.cultura.gov.br/

4. Governo elabora Política Nacional para as Culturas Tradicionais e Populares. Disponível em: https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/minccria-grupo-de-trabalho-para-culturastradicionais-e-populares#:~:text=O%20Minist%C3%A9rio20da%20Cultura%20(MinC,as%20Culturas%20Tradicionais%20e%20Populares.

5. O que é a Política Nacional de Cultura Viva? Disponível em: https://www.gov.br/culturaviva/pt-br/acesso-a-informacao/perguntas-frequentes/politica-nacionalde-cultura-viva/o-que-e-a-politica

6. SOS RS. MinC propõe rede de mapeamento e recuperação do patrimônio material, acervos museais e arquivos para o Rio Grande do Sul. Disponível em: https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/minc-propoe-rede-de-mapeamento-erecuperacao-do-patrimonio-materialacervos-museais-e-arquivos-para-o-rs