A VIRADA CULTURAL PARA A CONSCIENTIZAÇÃO CLIMÁTICA

por Marcele Oliveira

Em 2019, o bairro de Realengo, localizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, utilizou práticas culturais para conscientizar a comunidade sobre a importância de proteger áreas verdes. A luta pela implementação de um parque verde deu frutos em 2024, ano de inauguração do “Parque Susana Naspolini”, que integra uma política pública de parques urbanos em territórios periféricos adotada pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. A ocupação artístico-cultural denominada “Parquinho Verde” foi uma peça-chave nessa história, mostrando que, assim como em outras iniciativas periféricas, indígenas, quilombolas e ribeirinhas, o saber ancestral, passado de geração em geração, pode adiar o fim do mundo, despertando consciências por meio da cultura. 

Para salvaguardar nossa memória, proteger nossos territórios e remediar os impactos das mudanças climáticas, é necessário modificar a forma como entendemos nossa relação com o meio ambiente. O engenheiro ambiental Malcom Ferdinand, que pesquisa a interação entre o colonialismo e as problemáticas ambientais a partir da realidade do Caribe, aponta, no livro Uma ecologia decolonial (2022), que existe um “habitar colonial” e que a imposição dele impulsiona um modelo de existência exploratório, pelo qual a destruição determina mudanças radicais em modos de viver locais.

Nós estamos habitando colonialmente, perpetuando uma experiência de esquecimento e desconexão. Pra completar, “longe”, “violento”, “perigoso” e “não tem nada de bom lá” são palavras comumente destinadas às periferias do Brasil e do mundo, a partir do olhar de quem não convive com o cotidiano delas e, portanto, jamais poderia compreender suas potências. Conectar a pauta cultural com a pauta de mudanças climáticas é compreender que o racismo ambiental aponta a negligência e a necropolítica (Mbembe, 2016) aplicada para com às periferias, seja na alimentação ultraprocessada, na qualidade do ar prejudicada por grandes empresas, no oferecimento inadequado do saneamento ou na baixa oferta de espaços de atividades de educação climática. Somos um mar de gente no concreto e com todos os pertences embaixo da terra ou da água remexida por enchentes e inundações.

O geógrafo Milton Santos (2006) aborda que a construção do conceito de território passa pelas reflexões sobre um “lugar cotidiano compartilhado entre diferentes frentes” e “mutável de acordo com quem o habita”. Sendo assim, abandonar o habitar colonial pode transformar territórios periféricos em plataformas de reconstrução da memória e da identidade coletiva, possibilitando um novo jeito de pensar as cidades, incluindo a periferia na centralidade do debate e agindo de forma rápida para desassorear rios, reflorestar matas ciliares, fomentar hortas comunitárias, instrumentalizar o campo diante dos desafios climáticos e reconectar o meio urbano com os saberes da floresta.

A virada cultural em torno da pauta das mudanças climáticas é uma metodologia possível. As mudanças no clima já apresentam consequências catastró-ficas que resultam em mortes, com maior expressividade em espaços periféricos. O conceito de “virada cultural”, apresentado por Stuart Hall (1997), é uma análise sobrecomo nossos consensos sociais ditam nosso modo de vida. Se a cultura é a soma de diferentes formatos de compreensão e classificação, falar de uma “virada cultural” é falar de inovar nossa forma de compreender a linguagem comum, elencando novas prioridades.

Uma virada cultural é uma virada narrativa e abre precedente para pensarmos uma virada ambiental. Nosso país está assumindo um papel de liderança internacional no combate à crise climática. A realização do G20, no Rio de Janeiro, e da COP30, em Belém do Pará, são momentos importantes para mostrarmos enquanto sul global, diante de negociações restritas com os maiores líderes econômicos mundiais, uma agenda interseccional liderada por mulheres negras tanto na pasta de Cultura quanto na pasta de Meio Ambiente e Mudança do Clima.

O conceito de periferia não é somente sobre o espaço geográfico, mas também sobre a unificação de diferentes territórios em torno de desafios comuns. Da Amazônia à Mata Atlântica, as dificuldades de integrar sustentabilidade na prática assombra os fazedores culturais. Não podemos nos contentar com copos eco, ecobag e resíduos sólidos encaminhados para cooperativas sem nomes publicizados. O hoje precisa virar a consciência, de quem produz e de quem consome, impulsionando uma educação climática que promova a construção de uma cultura de risco, entendendo o tamanho do problema que colocamos o nosso problema.

A cultura precisa estar oficialmente dentro da estratégia para o combate à desinformação climática, posicionada legislativamente dentro das políticas ambientais e culturais como uma frente de comunicação massiva. Precisamos combinar que, dos grandes festivais às batalhas de rima locais, as mudanças climáticas devem ser pautadas com seriedade, trazendo informações que podem salvar vidas e mobilizar pessoas. O futuro que queremos precisa incluir leis e práticas sustentáveis no dia a dia, de forma rápida e eficaz, numa onda de conscientização e mobilização cultural, dando suporte aos fazedores culturais para tal, construindo uma nova geração de educadores climáticos e ambientais por meio da arte.

_

BIBLIOGRAFIA

Oliveira, Marcele Maria. Ocupação Parquinho Verde: a cultura como aliada no enfrentamento as consequências das mudanças climáticas nas periferias. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) -Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e Comunicação Social, Niterói, 2023.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006. FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu Editora, 2022 

Ailton Krenak – O Amanhã Não Está a Venda 

HALL, Stuart. A centralidade da cultura: Notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Educação e Realidade, 22(2), 15-46, 1997. Recuperado de https://bit.ly/3hDil2R Periferias no Plural / matéria: https://www.nexojornal.com.br/o-surgimento-daidentidade-das-periferias-brasileira

Marcele Oliveira

Marcele Oliveira é produtora cultural, comunicadora e ativista climática. Atual diretora executiva do Perifalab, co-fundadora da Coalizão O Clima é de Mudança e Jovem Negociadora pelo Clima da Secretaria do Meio Ambiente e Clima do Rio. Pesquisa a interlocução entre práticas culturais e o combate às consequências das mudanças climáticas nas periferias.