Por muito tempo, o debate climático representou uma ideia distante para grande parte da população brasileira. Dados, conceitos e termos técnicos pareciam não dialogar com o dia a dia da maioria das cidadãs e cidadãos.
Esse cenário vem mudando. Com intensidade e frequência crescentes, os impactos do aquecimento do planeta se manifestam cotidianamente, sobretudo para as camadas mais vulnerabilizadas da sociedade. Pessoas que sempre sentiram na pele os efeitos de inundações, deslizamentos de terra, secas e ondas de calor conectam, cada vez mais, os fatos aos nomes.
Mas a compreensão da ameaça que a mudança do clima representa à vida humana não precisa, e nem deve, se dar apenas pela dor. É necessário lançar mão de todas as estratégias disponíveis para comunicá- la e mobilizar a sociedade para seu enfrentamento. A cultura se apresenta como uma das mais poderosas plataformas nesse sentido.
Um estudo publicado na revista Nature demonstrou que obras de arte baseadas em dados climáticos despertam emoções mais intensas e tendem a gerar maior engajamento do público em relação à pauta na comparação com gráficos e informações técnicas isoladas. Isso sugere que a colaboração entre ciência e cultura pode ser um caminho eficiente para sensibilizar a sociedade sobre o tema. Não à toa, essa associação tem sido reconhecida no campo das negociações climáticas internacionais. Desde a 28ª Conferência do Clima da ONU (COP28), em novembro de 2023, está em funcionamento o Grupo de Amigos da Ação Climática Baseada na Cultura (GFCBCA, na sigla em inglês), liderado pelos Emirados Árabes Unidos e Brasil, presidentes das COPs 28 e 30, respectivamente.
A iniciativa, conduzida nacionalmente pelo Ministério da Cultura (MinC), destaca não apenas a vulnerabilidade dos sistemas culturais à mudança do clima, mas também o poder da cultura enquanto meio de conscientização social sobre a questão.
No Brasil, inúmeros artistas e ativistas recorrem às expressões culturais para denunciar a crise climática, expondo suas raízes e implicações. Mundano, com projetos como “Cinzas da Floresta” e “Tsunami de Plástico”, é um excepcional exemplo. Além das ruas e museus, muitos deles povoam as redes sociais com imagens, vídeos e conteúdos que provocam reflexão.
A cultura tem o potencial de traduzir informações complexas para narrativas acessíveis, muitas vezes de forma lúdica, transformando mentalidades e comportamentos. É elemento crucial para a qualificação da consciência coletiva sobre a mudança do clima, suas causas e consequências. Coloquemos a cultura no lugar que merece ocupar: como plataforma essencial de ação climática.